Saturday, November 04, 2006

Um cachorrinho sozinho no meio da multidão

Certos episódios acontecem na nossa vida, simplesmente acontecem, nada de destino ou de profecia, mas acontecem diariamente, e muitos desses episódios passam de largo sem que a gente perceba ou que dê a atenção necessária ou o valor que merece, simplesmente acontecem e pronto, deixando de fazer o efeito que deveria realmente fazer em nossas vidas, em nosso ser, em nossa alma.

Eu estava indo pra casa num dia normal de trabalho, cheio de coisas na cabeça, problemas pra resolver, contando o dinheiro do salário, quente, muito quente, suor, e gente muita gente e barulho no centro da cidade.
Perto do terminal central de ônibus, em meio aos vendedores ambulantes de outros países que aqui tentam a sua vida, lanchonetes e a fila para a entrada no terminal, avistei um cachorrinho, sujinho, mas não imundo, sabe, é engraçado falar de expressões caninas, mas ele não parecia estar triste, nem pedinte de algo como comida ou carinho, estava só ali, parado em meio de seres humanos bípedes, gente vendendo bala de goma e bilhetes de transporte, olhei e percebi que ele ficou ali parado.

Comprei meu bilhete no guichê, e me dirigi a tal fila que fluía rapidamente, e passei pela frente do cachorrinho, ele ficava ali parado e por um instante ele me fitou com os olhos como se pensasse, é mais um daqueles humanos, ali ele pairava como quem apreciasse o espetáculo de humanos bobos que entram e saem de dentro de latas com rodas que andam pra lá e pra cá jogando fumaça.
Pensei em quanta gente que os trata mal ou chuta sem qualquer motivo aparente.

Fiquei pensando, primeiro porque cachorrinhos abandonados me cortam o coração, é sério mesmo, segundo em toda a situação, estranho traçar paralelos entre vidas ou situações.
Pensei em mim, que em muitas situações estive parado analisando ou apreciando certas coisas, me senti parecido com aquele cachorrinho.

Mas todo mundo tem seus momentos, afinal de contas a gente não anda por aí falando o tempo todo, nem fazendo algo específico toda a hora, certas vezes a gente caminha pra algum lugar, mesmo que tenha um destino certo ou compromisso pra isso, mas pelo caminho a gente pensa, pensa muito em muita coisa, o silencio é apenas externo, nossa mente parece gritar e milhões de coisas pulam e saltam em nossa cabeça, problemas se resolvem outra pá deles se cria, cismas e criticas, preconceitos e traumas, tudo isso nos acompanha e faz nosso silêncio aparente um barulho ensurdecedor internamente.

No dia seguinte, aí sim o destino, se é que pode se chamar de destino, me mostrou uma outra situação.

No ônibus eu avistei um garoto, ou melhor, já um homem formado, mas pra mim ele ainda parecia um garoto. Reconheci que ele estudara no meu colégio, não na minha série nem na minha sala, mas eu de vez em quando o avistava no recreio do colégio fazendo seu lanche sentadinho num canto ou em pé mesmo, com poucos amigos ou sozinho na maioria das vezes, o que me chamava a atenção era o potinho que ele sempre carregava, um potinho daqueles famosos "tupperware" azul claro com a tampa branquinha, que ele trazia o seu lanchinho, provavelmente preparado pela mãe, me recordava sempre do jardim de infância onde eu tinha minha lancheira e um potinho de suco da mesma marca, isso me fazia bem na maioria das vezes.

Pensava na solidão dele as vezes ao observá-lo mas nunca procurei conversar com ele, coisa de adolescente bobo. Os anos se passaram, eu me formei, entrei na faculdade e nunca mais vi esse garoto, o tempo passou mesmo, e nessa manhã eu reconheci o garoto do potinho no ônibus, agora um homem de roupa social e maletinha na mão.
Interessante, me deu uma vontade enorme de falar com ele, de perguntar se ele lembrava de mim, só por saber que a figura dele sozinho no recreio fazia parte de minhas lembranças de colégio, mas não o fiz novamente, e ao sair do ônibus, descemos no mesmo ponto, e ele rapidamente me fitou com os olhos, pareceu por um segundo que ele me reconheceu, mesmo agora eu com os cabelos bem compridos e o rosto e corpo mudados pelos anos, mas senti sim, e seguimos nossos rumos.

Nesse dia na hora do meu almoço eu pensei por uns minutos em tudo o que acontecera, e na mensagem que a gente recebe mas nem sempre absorve, em momentos que desperdiçarmos pensando em pecados e porcarias de nossa vida, festas e coisas fúteis, tempo em que poderíamos estar sendo úteis, mesmo que tenhamos que ficar em nosso silêncio barulhento internamente, andando por aí, atravessando ruas, esperando em filas de banco, dirigindo ou sentados num banco de parque, praça ou shopping.
Senti muita vontade de falar com pessoas, de abraçar meus amigos e amigas, me senti pequeno perante a esse mundo enorme em que vivemos, me senti só.

Percebi na verdade que mesmo com um mundo moderno, com as milhares de coisas que nos acontecem diariamente, tem certas horas que ficamos na mais profunda solidão, mesmo em meio a uma multidão, mesmo em silêncio ou no mais ensurdecedor alvoroço.

Nós não passamos de cachorrinhos sozinhos no meio da multidão, apreciando o dia-a-dia esperando alguém nos chutar .




Frase do dia : "Poder moderno é falar a verdade, ainda que seja incômoda."
Ciro Gomes

4 Comments:

Blogger Priscila Alves said...

Oi Polvani, eu estava com pregiça de ler este texto,mas a Fulaninha leu para mim e achei muito bom. Coloquei o endereço dele lá no meu blog,posso? Voltarei por aqui.

10:05 PM  
Blogger Priscila Alves said...

Opa, preguiça!

10:06 PM  
Anonymous Anonymous said...

quero mais dos teus textos!

7:35 AM  
Blogger Priscila Alves said...

Queremos mais textos sim, não deixe de escrever. Avisarei a Pan. Bj

10:42 AM  

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